Você acredita que o jogo de xadrez pode servir como metáfora para a vida? Isto é, que aquilo que define o jogo de xadrez, suas regras, suas estratégias, táticas, objetivos, e até sua forma e seu material podem servir na elaboração de alguma espécie de analogia entre as formas de vida, os modos de vida, e o funcionamento em um jogo de xadrez. Em fim, pode uma partida de xadrez, ou um lance em uma partida ser interpretados como uma espécie de representação de uma situação vivida por pessoas em um grupo social qualquer? Até que ponto podemos dizer que a vida “é como” (ou se assemelha a) uma partida de xadrez?
O meu objetivo aqui é, além de tentar elaborar um início de reflexão que possa conduzir a algum tipo de resposta a estas perguntas, refletir também sobre a possibilidade de se interpretar as ações humanas, os processos de tomadas de decisões e os debates dialógicos com outros e/ou consigo mesmo enquanto atividades regidas por regras, como em um jogo. Os motivos pelos quais tomo o jogo de xadrez como modelo irão transparecer ao longo da relfexão.
Quando obedecemos a uma regra ou seguimos uma norma de conduta ou comportamento nas nossas atividades diárias, em qualquer setor de nossas vidas, o estamos fazendo da mesma forma que os jogadores de xadrez, em uma partida, obedecem às regras do jogo que estão jogando? Não sei ao certo se a resposta a esta pergunta pode ser dada escolhendo-se, ou elaborando-se um argumento com a intenção de se chegar a uma resposta do tipo “sim” ou “não”. Quero dizer que é possível que, até certo ponto, analogias e comparações podem funcionar muito bem, a depender da profundidade e dos detalhes da reflexão a que se pretender chegar e elaborar nesta tarefa.
O nível de profundidade vai depender do interesse que cada um possa ter a respeito de questões como esta. Se, por exemplo, estivermos interessados apenas em produzir uma frase bonita, que cause um efeito poético no interlocutor, então teremos muito mais liberdade. Mas se este mesmo interlocutor pressionar por um tipo de resposta com maior grau de precisão, exigindo uma argumentação elaborada com padrões de racionalidade explícitos, então talvez não possamos sustentar a analogia que guia nossos questionamentos iniciais por muito tempo. É o que vamos elaborar, a seguir.
Vejamos. Em um jogo de xadrez os indivíduos, me refiro às peças, possuem funções (papéis) específicas que irão determinar suas possibilidades de movimentação e, em conseqüência, o seu valor indivídual no contexto do tabuleiro. Não parece ser por acaso que de certa forma o xadrez tenha sido elaborado espelhando-se numa determinada forma de vida, pois entre as duas partes em disputa (em debate, eu diria) temos cada uma representando uma determinada forma de grupo social com uma hierarquia marcada por personagens específicos: um rei, uma rainha, dois de cada funções secundárias (bispos, torres, cavalos) e um “exército” de peões. Em conseqüência, neste grupo numeroso de peões os indivíduos possuem o menor valor nominal. Para além deste nível de definições, poderíamos elaborar vários outros níveis intermediários, até chegarmos à representação da “vida real”. Por exemplo, níveis envolvendo os jogadores em si, seus objetivos, suas estratégias, as negociações possíveis envolvendo as duas partes, além de muitos outros.
Pois bem, o que é uma regra em um jogo de xadrez? Pode uma regra não ser respeitada? A resposta é um redondo ‘não’! Todas as regras do jogo de xadrez estão subentendidas em uma partida de xadrez. Quer seus jogadores façam uso delas ou não, elas estão ativas, podendo ser chamadas (isto é, explicitadas) em questão caso seja necessário. Normalmente se considera que as regras, entre jogadores experientes, não precisem ser lembradas, mas como veremos adiante, este nem sempre é o caso. Arriscaria afirmar que desconfio até mesmo que uma partida de xadrez envolva muita negociação em relação a estas regras. Mas deixemos isto de lado, por enquanto, já que pretendo desenvolver esta questão em outra oportunidade, quem sabe em um estudo etnográfico sobre uma partida de xadrez.
Admitindo, para o objetivo da presente reflexão, que as regras de uma partida não são questionáveis, repito a pergunta e a resposta: pode uma regra ser desrespeitada em uma partida?; não, isto é impossível. Digamos então, que uma regra em xadrez possui o mesmo estatuto de uma norma de comportamento[1]. Isto pode parecer admissível a princípio, mas eu desconfio que não seja o caso. E esta condição limitaria o tipo de comparação e analogias que poderíamos elaborar entre as ações em um jogo de xadrez e aquelas que realizamos nas nossas vidas cotidianas. Tomemos alguns exemplos da “vida real”.
Quando vamos a um restaurante, ou a qualquer estabelecimento comercial no qual nos servimos de produtos ali disponíveis aos seus clientes nós temos que pagar por estes produtos. Existe, então, uma regra, ou uma norma, que diz que se vamos a um restaurante temos que pagar a conta. Certo. Estas regras ou normas de comportamento social são da mesma natureza que as regras de um jogo como o xadrez? Não pretendo me alongar neste momento em detalhes. Pretendo fazer isso em outra ocasião, já que espero sinceramente que este esforço de refletir sobre uma certa “filosofia do xadrez” sirva de estímulo para a comunidade de interessados no tema. Concluirei esta reflexão de certo modo bruscamente dizendo que, mesmo que seja passível de questionamentos o estatuto das regras do xadrez no momento de uma partida, não parece ser possível jogar uma partida de xadrez desrespeitando qualquer de suas regras. No entanto, na vida em sociedade, as regras ou normas sociais de comportamento parecem ser, mesmo quando as mais rigidamente definidas pelo direito e por códigos de leis, sempre negociáveis, ou passíveis de julgamento e interpretações que definirão se a sua observância ou não, representam ou não um desrespeito “às regras do jogo” social. Por fim, conlcuirei então, dizendo que as práticas sociais não são regidas por regras ou normas no mesmo sentido em que um jogo em que oponentes devem respeitar as regras específicas referentes ao tipo de comportamento aceitável em uma partida, aqui no caso, do jogo de xadrez.
[1] Estou considerando aqui que “regra” e “norma” são sinônimos, para fins de iniciar a reflexão em suas linhas gerais. Futuramente pretendo discutir melhor esta dupla de conceitos, suas semelhanças e suas diferenças.
Jogando Consigo Mesmo?
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